A carreira pública é uma das diversas possibilidades de atuação para bacharéis em Direito e está no radar de boa parte dos estudantes. Como em outras áreas, fazer um concurso público é uma maratona que exige dedicação, estudo e uma boa base de conhecimento.

Para te ajudar nisso, conversamos com Guilherme Marra Toledo, que hoje é juiz de Direito no Distrito Federal, dono de uma trajetória inspiradora e, como você, um filho da PUC. Guilherme se formou na Universidade em 2013 e tem muito a compartilhar.
No melhor estilo “gente como a gente”, ele contou seus desafios e experiências e trouxe dicas relevantes para você que busca uma carreira jurídica pública — principalmente na magistratura. Então confira a entrevista com Guilherme Marra Toledo.
Como foi estudar na PUC Minas e como a Universidade contribuiu para sua formação humana e profissional?
Estudar na PUC Minas, para mim, foi uma das melhores escolhas humanas e profissionais que eu fiz na vida. Do ponto de vista humano, é uma universidade muito acolhedora, os coordenadores dos cursos estão sempre muito preocupados, não só com o desempenho profissional dos seus alunos, mas também com uma formação digna.
Do ponto de vista profissional, então, nem se fala. É um curso muito organizado, com uma boa metodologia, com bons professores. Como todo curso, em qualquer lugar do mundo que você for, tem as suas deficiências, como tudo na vida. Mas, sem dúvida nenhuma, estar dentro da PUC Minas foi determinante para que eu conseguisse dar os passos que foram necessários para eu alcançar minha profissão e meu trabalho atual.
Além do próprio direcionamento dado pelos professores, pela organização da carga horária, pela qualidade dos professores, eu, em particular, aproveitei muito a estrutura da Universidade. Enquanto me preparava para o concurso, usei a biblioteca da PUC Coração Eucarístico, que tem uma estrutura excelente, passava lá o dia inteiro, até no final de semana.
É uma Universidade que, para quem pretende fazer Direito, atende todos os requisitos para um desenvolvimento humano e profissional de qualidade, de modo a deixar o aluno apto a alcançar o que ele quiser dentro da carreira jurídica. Não tenho o menor receio de indicar a PUC Minas, a Universidade prepara o aluno para o mercado de trabalho e também para carreiras como promotor, juiz, delegado, defensor, procurador…
Enfim, o curso de Direito, para quem faz a sua parte, é realmente transformador, como foi no meu caso. Eu não venho de família rica e tive muita dificuldade, mas consegui me dedicar e aproveitar o curso, dei as minhas sortes no caminho, como todo mundo, e alcancei um cargo que transformou a minha vida.
Conte-nos por favor sua trajetória profissional até se tornar juiz de Direito no Distrito Federal.
Hoje eu sou juiz de Direito no Tribunal de Justiça do Distrito Federal, tomei posse em 2017. Formei-me na PUC Minas em 2013 e a magistratura foi o meu primeiro cargo público. Desde o primeiro período da faculdade eu estagiei em escritórios de advocacia. Estagiei em dois escritórios, um do primeiro ao sexto período e outro do sexto até o fim do curso. Terminei o curso sendo estagiário nesse escritório, advoguei lá por mais dois anos, depois saí e fui advogar por conta própria enquanto estudava para o concurso.
Nesses dois anos de advocacia dentro do escritório, eu me planejei e me organizei financeiramente para guardar uma parte do que eu recebia. Então esse planejamento foi importante para que eu continuasse pagando minhas contas quando resolvi advogar por conta própria.
Numa visão panorâmica, essa foi minha carreira jurídica do primeiro período até os dias atuais na magistratura. E uma das características mais enriquecedoras da minha carreira, que mais me permitiu aprender o Direito, foi trabalhar na área desde cedo.
Além do conhecimento técnico, quais as principais soft skills um juiz de Direito precisa ter?
Esse tema das soft skills é muito interessante e muito importante hoje. No futuro, então, nem se fala. No meu modo de ver, acredito que as soft skills serão as características mais importantes de qualquer profissional humano no futuro, porque muitas das coisas, a maioria do que o humano faz hoje, serão feitas pela inteligência artificial.
Então acredito que, em toda área de atuação, não só na jurídica, os casos do dia a dia, a maioria dos problemas que são resolvidos por um profissional da área, são problemas comuns, tecnicamente fáceis de serem resolvidos. Esses vão ser transferidos para a máquina. Vão ficar para o ser humano aqueles problemas inéditos, complexos, e vão exigir que as pessoas sejam humanas, relações interpessoais de qualidade e gestão de pessoas.
Então as soft skills, na sociedade que está se formando, são um tema de suma importância para qualquer profissional. Para a área do Direito, principalmente na carreira da magistratura, considero que uma soft skill importante é saber o seu papel e saber lidar com opiniões divergentes com maturidade. Porque a vida de um juiz é estar em meio a um conflito. E, em um conflito profissional, você não é inimigo do outro que pensa diferente de você, ou que está em uma posição oposta à sua. Cada um tem o seu papel e, ao desempenhar o nosso papel, todos nós erramos às vezes. Temos visto na internet muitos vídeos de advogados, promotores, juízes, num verdadeiro show de horrores, mal-educados, brigando, desrespeitando uns ao outros. Simplesmente porque eles não aceitam o papel do outro.
Isso parece óbvio, mas na prática não é. Minha dica para quem quer seguir essa área é: comece a se esforçar para que, quando você chegar lá, você tenha essa maturidade de reconhecer e aceitar o papel do outro; e conseguir trabalhar bem, aceitar posições divergentes, é muito importante para que você faça um trabalho técnico e em paz.
Outra soft skill muito importante para quem quer ser um juiz é saber gerir e relacionar-se bem com pessoas, porque o juiz não só trata do processo, ele trata de uma secretaria, ele trata de servidores, ele faz mediação entre conflitos de servidores. Portanto, ter uma boa noção de como gerir pessoas é muito importante para o trabalho. Não é só saber de Direito, é necessário saber de pessoas.
E isso é uma exigência que vai se impor, não só na área jurídica, mas em todas as áreas, porque saber trabalhar com pessoas vai ser um diferencial riquíssimo em um mundo em que a máquina faz muitas das coisas que antes eram feitas pelos humanos.
Quais os principais desafios e oportunidades da sua profissão?
Os principais desafios da carreira da magistratura hoje, para quem já está atuando, são a gestão de pessoas, como comentei anteriormente, e a gestão de processos. É um volume enorme de processos a ser gerido e uma pressão das corregedorias para que haja uma produção de modo a dar vazão a esses processos — e, ao mesmo tempo, que essa vazão seja dada com decisões de qualidade. Então, para quem já entrou na carreira, eu acho que hoje, além da gestão de pessoas, que eu disse na resposta anterior, conseguir dar vazão aos processos com decisões de qualidade é um grande desafio.
Com relação às oportunidades, depois que você entra na carreira da magistratura, as oportunidades são mais restritas. Basicamente, você vai ser juiz, vai se tornar um desembargador e sua carreira é a magistratura.
Vou trazer a minha visão sobre as oportunidades do Direito. Quem está entrando na faculdade de Direito hoje em dia tem pela frente um mundo que vai ser completamente transformado.
A advocacia que a gente conhece hoje não vai existir mais do jeito que existe por conta da inteligência artificial. Eu acredito que as oportunidades na advocacia para advogados recém-formados vão ficar mais escassas, por conta dessa substituição da atividade repetitiva pela inteligência artificial. No entanto, nós estamos começando uma era de oportunidades tecnológicas. A gente vive uma janela de oportunidade, que é a de aplicar a inteligência artificial generativa nas mais diversas áreas do conhecimento.
Dessa forma, se eu estivesse entrando agora no curso de Direito, eu seguiria ou o caminho dos concursos — nos quais a aprovação depende majoritariamente do esforço do estudante, então é uma opção mais certeira —, ou o caminho da tecnologia. Estudaria Direito e paralelamente começaria a estudar programação de computadores com foco em ciência de dados e inteligência artificial generativa, para criar, para trabalhar com softwares jurídicos de inteligência artificial.
Claro, se alguém é herdeiro, tem um tio, um pai que já tem um escritório de advocacia estabelecido e vai herdar esse escritório, tudo bem, mas se você que está lendo vier de uma realidade diferente, talvez a advocacia autônoma não seja a melhor opção inicialmente. Acredito que o melhor caminho seja estudar Direito, estudar tecnologia e posteriormente juntar os dois campos.
Como o estudante pode começar a se preparar para o concurso para juiz de Direito ainda na faculdade?
O estudo para concurso é uma trajetória de médio a longo prazo. E não adianta querer antecipar as coisas de forma muito exagerada. Não adianta, por exemplo, se você está no segundo período, querer estudar da mesma maneira que alguém que já está se preparando para a prova oral da magistratura.
Até a neurociência defende que, para aprender algo, é preciso de tempo, é preciso esquecer aquele algo para depois relembrar, é preciso ter contato com aquele algo em contextos diferentes. Ou seja, para você aprender algo a ponto de conseguir passar em um concurso de alto nível, o tempo vai ser necessário. Não tem como antecipar de forma substancial um tempo mínimo de dedicação.
Então, a questão é como aproveitar esse tempo que nós temos na faculdade até lá. Sugiro, nesse momento inicial, praticar o Direito e entender como funciona. Quando você estiver lá no quinto ou sexto período, começa a colocar na sua rotina o estudo da jurisprudência, das decisões dos tribunais superiores, STJ, STF, entre outros. No início você pode não entender muito bem, mas insista. Tenha contato com esse conhecimento da jurisprudência.
Não entendeu uma coisa ou viu o nome de um instituto jurídico? Pesquise sobre ele, busque mais informações e mantenha esse estudo até o final do seu curso.
Seguindo isso e, obviamente, fazendo o estudo bem-feito da faculdade em si, você já vai se formar na frente de muita gente, com uma bagagem muito boa. Você já vai ser um diamante bruto, pronto para ser lapidado, para conseguir passar na magistratura.
Depois que você se formar, para ser juiz, você vai ter que ficar pelo menos três anos trabalhando na área. Assim, formou, pega um cursinho extensivo anual bom, e faça esse curso durante um ano. Vão sobrar mais dois anos. Depois desses dois anos, aí sim você começa a intensificar os seus estudos para poder alcançar a aprovação na magistratura. Essa é uma forma de você aproveitar bem esse tempo de forma eficiente e sem se sobrecarregar. A verdade é: você tem que criar um plano sustentável no longo prazo, não é uma corrida de cem metros.
Quais dicas você pode dar a quem deseja seguir carreira jurídica no setor público?
A principal dica é trabalhar com Direito desde o início da faculdade, praticar e entender como a área funciona. Porque o Direito, principalmente o processual, o civil, o penal, é muito abstrato para quem nunca viu um processo tramitando de perto.
Nós conseguimos aprender bem o direito material, o direito penal, o direito civil, o direito administrativo, o direito constitucional, que são aqueles ramos do Direito que estabelecem os direitos e deveres da sociedade. Direito e dever, crescemos sabendo o que é. Então, quando se estuda sobre quais direitos existem, quais deveres existem, por que existem, isso já faz parte da nossa natureza humana, questionar o certo e o errado, o permitido e o proibido desde criança. Esses campos até conseguimos estudar com clareza e qualidade sem trabalhar na área.
Agora, o direito processual, o processo civil, o processo penal, o direito processual é como fazer valer os direitos, certo?
E o processo, a matéria processual, temos na faculdade, nós aprendemos o processo civil e o processo penal, mas é muito abstrato para quem nunca viu a coisa funcionar. Não é fácil visualizar, estudar o direito processual sem vê-lo acontecer na prática. Tanto é que é uma matéria em que normalmente os alunos têm dificuldade. E tem mais: embora a finalidade do Direito seja mesmo efetivar, garantir que direitos e deveres estão sendo observados na nossa sociedade, o processo é normalmente o que causa mais polêmica, é o que mais está no dia a dia das discussões jurídicas. Saber processo é muito importante para um bom jurista e, para saber processo, o estudante tem que ver o processo acontecendo na prática.
Por isso que eu recomendo fortemente para quem quer seguir essa carreira trabalhar na área e fazer bons estágios. Porque isso vai te colocar à frente de muitos dos seus concorrentes e vai te fazer ter uma visão prática, vai te fazer ter experiência na área jurídica; além de facilitar o seu entendimento a respeito das mais complexas discussões da área.
O que mais te motiva no exercício da magistratura?
Ser juiz, para mim, eu brinco que nem é trabalho, porque eu adoro. É algo que eu faço sem o menor esforço. E, dentro da carreira, da minha atividade, o que mais me agrada é a chamada independência funcional. É você poder errar do seu jeito, você poder fazer o que você acha que é o certo naquele caso, não ter que defender algo que não acredita, poder pensar o Direito sem estar vinculado a ninguém, a nenhum interesse, a não ser a lei e a Constituição. Isso, para mim, para quem trabalha com Direito, não tem preço, é como um salário à parte.
Além disso, a magistratura possibilita um conforto e uma qualidade de vida enormes. Claro, nós não ficamos ricos quando passamos na magistratura, mas temos uma belíssima remuneração e estrutura. Temos uma tranquilidade de garantias, como ter certeza de que meu filho vai estudar, de que vou conseguir pagar minhas contas, fazer uma viagem, por exemplo. Então, a qualidade de vida e a estabilidade que a magistratura oferece, do ponto de vista pessoal, vale cada segundo de esforço na preparação. E do ponto de vista profissional, o que mais me motiva e o que mais me encanta é mesmo a independência funcional.
Bacanas demais a história e as dicas do Guilherme, não é mesmo? Aprender com quem sabe e viveu os desafios do processo faz toda a diferença. É interessante observar como a estrutura e a excelência da PUC Minas são marcantes nas etapas de construção da carreira dele.
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